quinta-feira, 23 de junho de 2016

Negro amor ao som de Bruce Springsteen


Paris – Acaso – você conhece – é só um dos nomes de Deus. Por essa espécie de acaso, conheci João. Eu jantava com amigos quando o garçom me chamou a atenção. Um negro pequeno, forte, cabeça pequena, olhos redondos pretos e vivos, sorriso enorme. E qualquer coisa luminosa em volta. Apesar do seu francês impecável, imaginei Cabo Verde, Cuba, Martinica. Puxei papo. João é brasileiro. De Minas. O mais simpático, rápido e sorridente garçom daquele restaurante de garçons meio emburrados. Por outro acaso desses, outra noite nos cruzamos num bar. Mortos de sede do Brasil, cantamos juntos Nana Caymmi, depois caímos nesse poço inevitável: histórias pessoais. Eu quase não tinha nada a contar ou, por deformação profissional, preferia ouvir. Entre cervejas, então, João contou.

Veio do Brasil há mais de dez anos, apaixonado por Christian, um francês também apaixonado por ele. Trabalharam, viajaram, se amaram, sempre juntos. Então Christian começou a ficar doente, cada vez mais doente. Fez o teste fatídico: sim, Aids – ou Sida, como dizem os franceses e nós brasileiros também deveríamos dizer, não fôssemos tão colonizados. Mas isso não importa agora.

O que importa é a história de João. Dura, real, presente. A morte, no pequeno apartamento alugado, Christian recusa-se a ser hospitalizado. O AZT, DDI e todas essas coisas afetaram sua mente, às vezes foge pelas ruas, seminu e muito magro. João avisou a mãe de Christian, que não o conhecia e vive em Toulouse. A mãe, judia de 74 anos que muito sofreu durante a guerra, veio a Paris sem saber do que se tratava. Sem saber de absolutamente nada. E esbarrou nas três pontas farpadas desta situação: 1º) O filho de 40 anos é homossexual; 2º) o filho está à morte com Aids; 3°) O filho vive com um negro brasileiro. Na cara certamente exausta dessa velha senhora, três preconceitos de uma só vez: a homossexualidade do filho único, a Aids e a raça de João – além de negro, brasileiro. E como se não bastasse, um assintoso teste negativo. Os três juntos num quarto e sala de Montparnasse. Christian delira no quarto. João trabalha em dois, três restaurantes, sem folga. A mãe quer levar o filho para morrer em Toulousse. Sem João, claro: o que não vão dizer os vizinhos? Christian não quer. João também não: “Quero que ele morra comigo. Quero ficar com ele até o fim, compreende?”.

Compreendo. E vejo a mãe sentada na sala olhando João com olhos acusadores quando ele chega de madrugada. João traz flores, frutas, leite, pães. Que a mãe não toca. Como se estivessem contaminados e João fosse o anjo negro portador da peste desse País assustador, a que os franceses se referem como lá-bas... João evita voltar para casa, fica pelos bares, vezenquando dorme no apartamentoo de Fifi, que vive no mesmo prédio e é o melhor amigo de Christian. O que fazer com uma história destas?

Parece peça de teatro, digo, parece filme. E quando digo “filme”, ao mesmo tempo em que João me pergunta o que fazer, eu tenho a ideia. João, convide a mãe de Christian para ir ao cinema, leve-a para ver Filadélfia, de Jonathan Demme. Só isso. Não precisa dizer nada. Compre pipocas ou coisa alguma. Fique quieto, duas horas no escuro, ao lado dela. João sorri. Sorri sempre mesmo quando os detalhes de sua história são pesados demais. Et porquoi pas? considera. Eu me pergunto se voltarei a vê-lo assim, por acaso. Por isso que as pessoas – tão pudicas de magia – costumam chamar de “acaso”. E não sei o que vem depois.

Mas esse luminoso à sua volta João, quero perguntar, será o que chamam de “amor”? Ele não me escutaria. Braços abertos e sorriso enorme, dança no meio da pista como um Deus negro, solitário e selvagem.

A luta continua.

OESP, Caderno 2, 15 de maio de 1994

P.S: Essa crônica foi escrita em Paris. Caio F. ainda não se sabia portador do vírus da Aids, o que ocorreria logo depois da volta dessa viagem. Primeira Carta Para Além do Muro, crônica onde ele conta ser portador do vírus, foi publicada em 21 de agosto desse ano.



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