quarta-feira, 21 de junho de 2017

Falta o toque essencial da transgressão

Dei uma passado no Centro Convenções Rebouças, na segunda à tarde, para assistir ao debate sobre literatura feminina na Bienal Nestlé. O tema me interessa. Não que ache que literatura tem sexo. Mas, se penso em literatura brasileira contemporânea me vêm nomes – por coincidência femininos – da maior importância: Hilda Hilst, Lya Luft, Márcia Denser, Helena Jobim, Adélia Prado, Tânia Faillace, Ieda Inda, Sônia Coutinho, Marly de Oliveira ou, na área de ensaio ou crítica, Heloisa Buarque de Holanda e essa ótima Flora Sussekind. Não deixaria de lado também poetas como Orides Fontella, Ana Cristina César, Ledusha e Bruna Lombardi.

Bem: elas não estavam lá. Ana C., a mais contundente e contemporânea voz poética surgida neste país, porque suicidou-se há mais de dois anos. Lya Luft não veio. E transgressoras diabas como Márcia Denser e Lya Luft jamais seriam convidadas para um chá desse teor. Bruna é linda demais: ninguém admite que beleza possa ter talento. Restou Sônia Coutinho, dando seu depoimento despojado, sem a menor intenção de ser ou parecer enviada dos deuses.

Bella Jozef, com toda dignidade, comandou como pôde depoimentos e debates onde pouco ou nada de estimulante foi dito. E ficou no ar uma ideia estranha: que literatura feminina, de repente, possa ser a orgia de lugares comuns pseudoliterários de uma Myriam Fraga ou de uma Stella Leonardos. De que literatura seja deliquescência e harpejos, vontade que os pobres mortais cultivem as flores do espírito para que o planeta possa finalmente transformar-se num mar de água de rosas. Ou de leite Davene. Quem seria capaz de imaginar, ali, que em literatura feminina brasileira cabem também a loucura de Maura Lopes Cançado ou Luciane Samôr – uma no hospício, outra esquecida em Minas?

Fazia frio. Fui embora deprimido. Fiz um chá, deitei às nove da noite. Fiquei deitado, lendo e relendo os últimos versos escritos por Ana Cristina César. Estes: “Não querida, não é preciso correr assim do que vivemos.O espaço arde. O perigo de viver”. Não é, senhoras?


                  O Estado de SP, Caderno 2, Quarta-feira, 9 de Julho de 1986

terça-feira, 20 de junho de 2017

Duas ou três coisas sobre os anos 80


                 Duas ou três coisas sobre os anos 80


Foto de Juca Martins
Não sei de onde veio essa mania de dividir o tempo em décadas. Como ele se tornasse mais compreensível e suportável assim organizadinho, disposto em prateleiras. Penso então que a gente quase sempre dá nome às coisas para perder o medo delas. Não sei se conseguimos. Mas sei que se eu falar anos 40 ou 50 ou 60 ou 70, imediatamente você monta uma colagem-painel na cabeça, onde cabem de Humphrey Bogart a Martha Rocha, de Crush a Aída Curi, Patricia Hearst e Sid Vicious, Chevrolet Impala e flower-power. Arbitrária ou não, a divisão funciona. Pelo menos para dar uma certa ilusão de disciplina ao caos.

Mas se eu falar anos-80, você pensa o quê? Tenho pensado duas ou três coisas sobre isso. Com a autoridade talvez apenas de estar dentro deles, em pleno centro vertiginoso e assustador da exata metade deles (junho, 85), perdido entre os 10 milhões de habitantes desta cada vez mais dura Sampa. E se adjetivo “vertiginoso & assustador” já estou dizendo senão três, pelo menos duas coisas sobre este tempo. Sinto muito: conto só com o que sinto e os meus sentidos captam.

Anda tudo muito triste. Engolimos a negação das diretas, aceitamos a meia-sola Tancredo Neves, devoramos a orgia fúnebre via Rede Globo. Órfãos, caímos nos braços de José Sarney. Que não escolhemos, mas tudo bem, cara: trata-se da “Nova República” anunciada pelas centenas de pombos que Fafá de Belém soltou por aí. Uma mágica: Fafá solta a pomba e, plim-plim!, a Nova República cai do céu como um maná, solucionando as secas, enchentes, inflação, fome, desemprego e solidão. Só que não aconteceu nada. Não só em relação a isso, mas a muito mais, tenho me perguntado assim: a face dos anos-80 não estará sendo esse indisfarçável furo na cartola de onde deveria ter saído um coelho?

Não quero falar de Podres Poderes. Há coisas mais graves no ar. São Paulo atualmente é uma cidade tomada pela paranoia do Aids. Pelo menos na faixa de gente-como-a-gente: essa parcela mínima e privilegiada da população que não só come e mora (coisa rara), como ainda por cima ainda lê, vai ao cinema, essas coisas. Conheço pessoas que não se tocam mais. O que é que se faz quando aquilo que era possibilidade de prazer – o toque, o beijo, o mergulho no corpo alheio capaz de nos livrar da sensação de finitude e incomunicabilidade – começa a se tornar possibilidade de horror? Quando o amor vira risco de contaminação. Pouco importa se entre homens e mulheres, entre homens e homens ou mulheres e mulheres. Os médicos acham importante desvincular a ideia da Aids da homossexualidade, sabia? E pouco importa também não saber ao certo de onde veio o vírus maldito. As hipóteses não atenuam o fato: a coisa existe. E mata. Pior ainda: estimula a níveis dementes o preconceito contra a mais castigada das minorias. Há qualquer coisa de nazismo no ar. Qualquer coisa de fogueiras medievais para queimar os feiticeiros. Lenha é que não falta.

Então, para nos distrairmos, há o pós. Pós-punk, pós-new wave, pós-moderno, pós-tudo, pós-pós. E há o new: new catolicismo, new-jovem-guarda, new puritanismo. Ninguém falou ainda no pré. Pré-qualquer-coisa. Anos-80 como pré cara a cara com a nossa perdição de micróbios doentes na costa frágil de um planetinha insignificante? Anda, sim, tudo muito triste. Tudo foi questionado, experimentado, negado, superado: a moda caiu de moda. O vazio e a involução tornam-se dolorosamente nítidos se a gente colocar lado a lado, por exemplo e ao acaso, Beatles e Menudos. Embora eu até possa concordar que a abobrinha seja uma saudável saída para the horror... the horror... Os fins de semana paulistanos têm sido pródigos em abobrinhas para os mais variados gostos, de amantes profissionais a rapazes com problemas por usarem óculos. Mas a gente não é hiena, certo?

Mas a lesão mais feia, mais feia que a ferida na perna do mendigo da esquina aqui de casa, corroendo por trás dos modelinhos Company ou Fiorucci é essa medonha suspeita de que de tanto pestear a natureza, o homem finalmente conseguiu tornar-se, ele mesmo, a própria peste. Daí, eu também ando muito triste. E sem entender quase nada.

                        Revista Domingo, Jornal do Brasil, 2 de junho de 1985


Atenção: A coluna de Caio F. no Caderno 2 do Estadão começou em 1986. Essa crônica pro JB é de antes disso

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Belíssima e dolorosa secura: A Hora da Estrela, o filme

A Hora da Estrela, o último livro escrito por Clarice Lispector, foi relançado (Rocco) em uma caprichada edição capa dura com manuscritos e ensaios inéditos. Abaixo, texto de Caio Fernando Abreu quando do lançamento do filme, em 1986. 

A Hora da Estrela
é como Clarice Lispector
Inteligente e sensível

Era tudo mentira: a infilmável (e para muita gente, ilegível também) Clarice Lispector era filmável sim. E que belo filme, capaz de ganhar 12 prêmios no Festival de Brasília do ano passado, outros em Berlim e outros em Paris! Tudo isso para uma história onde pouco ou nada acontece, como pouco ou nada acontece na vida de sua personagem, a nordestina Macabéa, transplantada para a grande cidade.

Por trás dos letreiros de apresentação ouvem-se os sinais e as informações “culturais” da Rádio Relógio, que Macabéa ouve ininterruptamente. Depois, ela bate à máquina no escritório. Tecla por tecla, um dedo só. O ritmo monocórdico, mas girando em profundidade, como um parafuso, da prosa de Clarice Lispector transparece nas imagens. Decidida, Suzana Amaral envereda por uma narrativa lenta, intimista, quase muda. Como Clarice, na sua inteligência, talento e sensibilidade, fazendo o esforço de tentar compreender uma personagem desinteligente, sem talento algum e grossa sensibilidade. O resultado é pleno de compreensão humana: aquela compreensão que, às vezes, acima das ideologias, os mais bem dotados intelectual, estética ou/e economicamente conseguem ter dessa extensa legião de deserdados que forma o povo brasileiro.

E Macabéa é a cara do povo brasileiro, no seu sem gracismo, na sua falta de futuro, no passado tragicamente vago e no presente quase inexistente. O curioso é que acusada de aristocrática e elitista, em A Hora da Estrela, Clarice Lispector foi capaz de traçar um dos mais pungentes retratos do Brasil que conheço. Fiel à ideia de que cinema se faz com imagens, Suzana Amaral teve a sabedoria de retirar do texto de Clarice tudo que ele tem de metalinguagem, de autoinvestigação. E o filme é praticamente imagem: belíssimas imagens na dolorosa secura fotografadas por Edgar Moura.

Talvez a diretora perca um pouco a mão no final, ao relacionar a estrela que falava Clarice, à estrela do carro que atropela Macabéa. E na lírica corrida em câmera lenta. Pouco importa: há muitas leituras possíveis de Clarice. A de Suzana Amaral foi inspirada. Tão inspirada que encontrou Marcélia Cartaxo para fazer Macabéa, numa atuação de tal forma identificada que é mais que uma atuação: é uma vivência. Profunda e perigosa a ponto de fazer Marcélia correr o risco de permanecer para sempre como a moça que não sabia sequer passear. Quem gosta de bons atores vai se deliciar com José Dumont (Olímpico), Tamara Taxman (a biscatona Glória) e Fernanda Montenegro (inesquecível como a cartomante). E quem sabe, olhar com olhos diferentes a multidão que cruza diariamente o Viaduto do Chá. Porque A Hora da Estrela acontece a toda hora, ali, na Avenida São João.

            O Estado de S. Paulo, Caderno 2, Quarta-feira, 23 de abril de 1986

O trailer de A Hora da Estrela 




segunda-feira, 5 de junho de 2017

Cor de rosa, uma ova!: Marianne Faithfull por Caio F.


                                         Cor de rosa, uma ova!

                                      Marianne Faithfull chega
                                      quietinha, carregando um
                                      forte sotaque de cabaré

Cuidado, meu amigo, vai doer. Se você é daqueles que acham que a vida é um mar de rosas cor-de-rosa, mantenha distância. Ou vá ouvir a Xuxa! Se vocÊ também não quer ver maculada aquela imagem da moça Marianne Faithull, musa da swingin´ London dos anos 60, groupie dos Rolling Stones, que passou na cara todos, estrelou filmes com Alain Delon e foi consagrada pela mídia da época como a garota símbolo de ousadia e liberação – não, melhor não ouvir esse dilacerante Strange Weather (WEA).

Mas, se você não tem medo de descobrir um dos discos mais bonitos lançados no Brasil este ano (e por que desespero, amargura, tristeza, desamor, solidão, não podem ser belos? Em pleno 1987?), caia de boca no blues de Marianne.Depois de uma tentativa de suicídio, envolvimentos com a polícia por causa de drogas (nada soft: heroína no duro), e pântanos de álcool, ela salvou-se não pela conversão a alguma seita brega, mas pela música. Sim, arte salva. Ou consola. Ou torna pelo menos suportável.

A foto em preto e branco da capa mostra um rosto ainda jovem, mas meio devastado (lindamente devastado). Com esse rosto, Marianne Faithfull joga sua voz grave, metálica, de negra velha, em 11 canções de clima pesado de cabaré. Lembra às vezes Lotte Lenya, mais frequente a deusa Marlene Dietrich. Uma Dietrich que tivesse atravessado aqueles velhos bons tempos de rock, sexo e drogas para chegar, depois do punk, ao som de New Orleans, onde começou o blues. Fumaça de muitos cigarros, bebidas fortes – e a certeza de que “desde o meu nascimento eu tenho sido uma estranha neste mundo” (em A Stranger on Earth, regravação de um clássico de Dinah Washington, que fecha o disco).

Cheia de fé, Faithfull relembra Billie Holiday em Yesterdays, passeia sem acompanhamento algum pela capela de Ain´ Goin´ Down to the Well No Mo, pelo hino religioso Sign of Judgement, revisa Bob Dylan (em I´ll Keep it with Mine), chega à sarjeta mais contemporânea de Tom Waits (um dos amigos que a ajudou a emergir da rebordosa, na faixa título). E chega ao paroxismo do requinte (da crueldade e do talento, também) ao regravar A Tears Go By, aquele antigo sucesso de Mick Jagger, Keith Richards e dela mesma, nos longínquos 17 anos. Dói, e dói muito ver (ou ouvir) o tempo assim, tão nítida e implacavelmente perdido.

Com músicos impecáveis, segundo ela mesma “os melhores de Nova York e alguns dos melhores do mundo” – entre eles o baixista Fernando Saunders e o bateirista J.T. Lewis, integrantes da banda de Lou Reed, a corajosa Faithfull conseguiu os cúmplices e o clima exato para encarar de frente a própria amargura. Claro, sonhos quebrados sempre doem. Mas talvez seja mais saudável contemplar os cacos e tentar compreender o quebra-cabeças do que comprar uma passagem para a Disneylândia.

O Estado de São Paulo, Caderno 2, quarta-feira, 21 de outubro de 1987

Aqui, Strange Weather, a faixa título do disco











terça-feira, 5 de julho de 2016

Infinitivamente pessoal


A lua completa mais de uma volta 
pelo zodíaco. E o anjo 
pálido troca o mel pelo sal.

Começou a amanhecer. Não sei ao certo como soubemos que tinha começado a amanhecer: era tão escuro ali dentro que noite ou dia lá fora não faria a menor diferença. Por algumas frestas, frinchas – não importa -, tivemos certeza de que começara, claramente, a amanhecer. E por condicionamento, talvez, porque sempre com o amanhecer chega a hora de ir embora, começamos a ir embora. Feito vampiros às avessas – necessitados de luz, não de sombra.

Tinha roxo e rosa no céu. Até as latas cheias de lixo na rua deserta pareciam vagamente douradas. Fez com que caminhássemos a pé, para olharmos o céu. E enquanto eu olhava o céu limpo da cidade suja, interpunha entre nós seu primeiro muro de palavras. Confusas, atormentadas, sobre tudo e sobre nada: palavras amontoadas umas sobre as outras, como se amontoam tijolos para separar alguma coisa de outra coisa. Eu, mal sabendo que esse – que parecia seu jeito mais fácil de ser – seria nas semanas seguintes seu jeito mais verdadeiro, às vezes único.

Quando o tempo passasse um pouco mais, nos surpreendendo ainda juntos em outra madrugada, minha cabeça repetiria tonta e lúcida “Éramos tão pálidos, e nos queríamos tanto”. Éramos muito pálidos naquela primeira manhã entre as latas de lixo da rua deserta, caminhando em direção ao dia de hoje – mas ainda não nos queríamos com este enorme susto no fundo dos olhos despreparados de querer sem dor.

Lembro que olhando para cima, descobri entre o roxo e o rosa das nuvens um anjo também pálido, magro e de barba por fazer, vestido de negro, com um leve sorriso nos lábios, vertendo uma gota de mel sobre nossas cabeças. Não prestei atenção nele. Me deixava levar, guiado apenas pelo jardim que entrevia pelas frestas dos tijolos, nos muros-palavras erguidos entre nós, com descuido e precisão. Viriam depois, mais duros que os de palavras, muros de silêncio tão espesso que nem mesmo os demorados exercícios de piano, as notas repetidas e os dedos distendidos, conseguiram derrubar.

Errei pela primeira vez quando me pediu a palavra amor, e eu neguei. Mentindo e blefando no jogo de não conceder poderes excessivos, quando o único jogo acertado seria não jogar: neguei e errei. Todo atento para não errar, errava cada vez mais. Mas durante as ausências, olhando então para cima e abrindo a boca, recebia em cheio na garganta as gotas de mel de jarro de lata que aquele anjo pálido trazia ao ombro. Embora me recusasse a ver que o anjo parecia cada vez mais sombrio. Incapaz de perceber que em seu leve sorriso, bem no canto da boca, começava a surgir uma marca de sarcasmo, feito um tique cruel.

Passaram-se muitos dias. A lua deu mais de uma volta completa no Zodíaco. Ultrapassou Sagitário e caminhou até Áries, completando seu triângulo de fogo e de paixão. Bati as mãos contra o muro, procurando brechas. Não havia mais. Espatifei as unhas, gritei por uma resposta qualquer. Nem uma veio de volta. Olhei para fora de mim e não consegui localizar ninguém no meio das vibrações da cidade suja. Olhei para dentro de mim e só havia sangue. Derramado, como nas cirandas.

Queria acordar, mas não era um sonho.

Então localizei outra vez aquele mesmo anjo parado entre as nuvens. Estava de branco, agora, mas nem nenhum sorriso nos lábios severos. Em suas mãos havia um jarro de ouro. De dentre dele, chovia um mar de sal sobre minha cabeça. Por quê? – eu perguntei. O anjo abriu a boca. E não sei se entendo o que me diz.

                 OESP, Caderno 2. Terça-feira, 1 de julho de 1986
                 E no livro Pequenas Epifanias

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Negro amor ao som de Bruce Springsteen


Paris – Acaso – você conhece – é só um dos nomes de Deus. Por essa espécie de acaso, conheci João. Eu jantava com amigos quando o garçom me chamou a atenção. Um negro pequeno, forte, cabeça pequena, olhos redondos pretos e vivos, sorriso enorme. E qualquer coisa luminosa em volta. Apesar do seu francês impecável, imaginei Cabo Verde, Cuba, Martinica. Puxei papo. João é brasileiro. De Minas. O mais simpático, rápido e sorridente garçom daquele restaurante de garçons meio emburrados. Por outro acaso desses, outra noite nos cruzamos num bar. Mortos de sede do Brasil, cantamos juntos Nana Caymmi, depois caímos nesse poço inevitável: histórias pessoais. Eu quase não tinha nada a contar ou, por deformação profissional, preferia ouvir. Entre cervejas, então, João contou.

Veio do Brasil há mais de dez anos, apaixonado por Christian, um francês também apaixonado por ele. Trabalharam, viajaram, se amaram, sempre juntos. Então Christian começou a ficar doente, cada vez mais doente. Fez o teste fatídico: sim, Aids – ou Sida, como dizem os franceses e nós brasileiros também deveríamos dizer, não fôssemos tão colonizados. Mas isso não importa agora.

O que importa é a história de João. Dura, real, presente. A morte, no pequeno apartamento alugado, Christian recusa-se a ser hospitalizado. O AZT, DDI e todas essas coisas afetaram sua mente, às vezes foge pelas ruas, seminu e muito magro. João avisou a mãe de Christian, que não o conhecia e vive em Toulouse. A mãe, judia de 74 anos que muito sofreu durante a guerra, veio a Paris sem saber do que se tratava. Sem saber de absolutamente nada. E esbarrou nas três pontas farpadas desta situação: 1º) O filho de 40 anos é homossexual; 2º) o filho está à morte com Aids; 3°) O filho vive com um negro brasileiro. Na cara certamente exausta dessa velha senhora, três preconceitos de uma só vez: a homossexualidade do filho único, a Aids e a raça de João – além de negro, brasileiro. E como se não bastasse, um assintoso teste negativo. Os três juntos num quarto e sala de Montparnasse. Christian delira no quarto. João trabalha em dois, três restaurantes, sem folga. A mãe quer levar o filho para morrer em Toulousse. Sem João, claro: o que não vão dizer os vizinhos? Christian não quer. João também não: “Quero que ele morra comigo. Quero ficar com ele até o fim, compreende?”.

Compreendo. E vejo a mãe sentada na sala olhando João com olhos acusadores quando ele chega de madrugada. João traz flores, frutas, leite, pães. Que a mãe não toca. Como se estivessem contaminados e João fosse o anjo negro portador da peste desse País assustador, a que os franceses se referem como lá-bas... João evita voltar para casa, fica pelos bares, vezenquando dorme no apartamentoo de Fifi, que vive no mesmo prédio e é o melhor amigo de Christian. O que fazer com uma história destas?

Parece peça de teatro, digo, parece filme. E quando digo “filme”, ao mesmo tempo em que João me pergunta o que fazer, eu tenho a ideia. João, convide a mãe de Christian para ir ao cinema, leve-a para ver Filadélfia, de Jonathan Demme. Só isso. Não precisa dizer nada. Compre pipocas ou coisa alguma. Fique quieto, duas horas no escuro, ao lado dela. João sorri. Sorri sempre mesmo quando os detalhes de sua história são pesados demais. Et porquoi pas? considera. Eu me pergunto se voltarei a vê-lo assim, por acaso. Por isso que as pessoas – tão pudicas de magia – costumam chamar de “acaso”. E não sei o que vem depois.

Mas esse luminoso à sua volta João, quero perguntar, será o que chamam de “amor”? Ele não me escutaria. Braços abertos e sorriso enorme, dança no meio da pista como um Deus negro, solitário e selvagem.

A luta continua.

OESP, Caderno 2, 15 de maio de 1994

P.S: Essa crônica foi escrita em Paris. Caio F. ainda não se sabia portador do vírus da Aids, o que ocorreria logo depois da volta dessa viagem. Primeira Carta Para Além do Muro, crônica onde ele conta ser portador do vírus, foi publicada em 21 de agosto desse ano.



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Existe sempre alguma coisa ausente

Paris – Toda a vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenir terceiro-mundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana D’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostella, do qual Notre-Dame é o ponto de partida – e em minha mãe, professora de história que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos há 20 anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo – nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”, feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Foto: Márcia Bechara, "furtada" do facebook dela
Enrolado num capotão da II Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares de Île de la Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casaem frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: "Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) – frase de uma carta escrita por Camille Claudel a Rodin, em 1886. Daquela casa, dizia a placa, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve – fiquei bem. Tomei um Calvador, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta – o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do Rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá escrevi uma novela chamada Bem Longe de Marienbad, homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso” fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.

Pego o metrô, vou conferir. Continua lá a placa, na fachada da casa número 19 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.


OESP, Caderno 2, 03 de abril de 1994. E no livro Pequenas Epifanias.